No senso comum, é frequente a ideia de que a terapia é um espaço destinado a curar as mazelas emocionais do paciente. Essa visão não está completamente equivocada, afinal, muitas pessoas buscam a terapia quando se sentem sem saída, em sofrimento psíquico intenso ou com a sensação de que todas as alternativas já foram esgotadas.
Entretanto, essa noção de cura na terapia costuma ser errônea e fantasiosa, o que frequentemente gera expectativas irreais sobre o processo terapêutico e dificuldades no andamento da análise. Especialmente em processos de psicoterapia analítica, é fundamental questionar o que, de fato, significa curar.
O que é curar?
No senso comum, a cura é compreendida como algo capaz de eliminar completamente os efeitos negativos de um problema psicológico, como se fosse possível apagar a relação do sujeito com sua dor emocional. Essa concepção pressupõe que o sofrimento possa ser removido sem deixar marcas, como se o paciente nunca tivesse sido atravessado por ele.
Essa é uma compreensão equivocada. A dor psíquica faz parte da história do sujeito e de sua constituição simbólica. A pergunta, então, não é como eliminar essa relação, mas como transformar a forma como o paciente se relaciona com seu sofrimento.
Na psicologia analítica, curar não significa suprimir sintomas ou apagar conflitos, mas possibilitar que o paciente saia de estados de estagnação psíquica, de sua neurose e de atitudes exageradas e unilaterais. A cura está relacionada à possibilidade de retomar o movimento da vida, ampliando a consciência e favorecendo uma adaptação mais viva e significativa.
A doença psíquica, nesse sentido, reside no exagero de uma atitude consciente unilateral, o que leva a uma psique pouco adaptada e provoca reações inconscientes de igual intensidade e força. O sintoma surge como tentativa de compensação e não como um erro a ser simplesmente eliminado.
Sobre os objetivos em análise
Além disso, nem todo processo terapêutico pode, ou deve, ter como objetivo a cura no sentido tradicional. Um ponto central da clínica junguiana é compreender que não existem objetivos prévios rigidamente definidos em uma análise, conceito que Jung descreve como a irracionalização dos objetivos em análise.
Isso significa que não se deve pressupor, de antemão, qual será o desfecho do processo terapêutico ou quais mudanças ele deverá produzir. Cada paciente possui uma história singular, e a análise pode assumir diferentes funções: para alguns, um processo profundo de transformação; para outros, um espaço de escuta e organização psíquica semanal.
Reduzir a psicoterapia à adaptação social ou à simples eliminação de sintomas é empobrecer o processo analítico. A terapia precisa se manter aberta ao desconhecido, ao inconsciente e às dimensões simbólicas da psique, indo além de uma abordagem puramente racional ou instrumental.
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Conclusão
A terapia não se resume ao tratamento de sintomas. Como discutido ao longo deste texto, a psicoterapia analítica não deve ser compreendida como um instrumento técnico voltado exclusivamente para a extinção do sofrimento, mas como um espaço no qual o paciente pode se tornar aquilo que sua psique demanda que ele seja.
Definir rigidamente os objetivos de uma análise é, em muitos casos, negar o encontro com o inconsciente, violentar a singularidade do paciente e impor critérios externos do que seria uma vida “normal” ou “saudável”. A verdadeira função da terapia está em sustentar um espaço de escuta, elaboração e transformação psíquica, além de alinhar expectativas quanto ao processo, respeitando o ritmo e a direção própria de cada indivíduo.
Referências
O Pensamento Vivo de Jung – Heráclito Pinheiro
Psicologia Junguiana: Uma introdução – Heráclito Pinheiro
O Método de Jung – Heráclito Pinheiro
