Muitas vezes, escuta-se a frase de que nascemos para fazer algo específico ou de que temos o dom em determinado assunto, o que é uma meia verdade. A aptidão é algo factual e que, de fato, facilita o aprendizado de algo. Entretanto, não se pode negar que é necessária uma boa dose de esforço e dedicação para se tornar mestre ou proficiente em algo. A ideia de vocação como um destino é aprisionante e pode levar à infelicidade. Em contrapartida, a ideia de ser uma escolha é razoável: dá autonomia ao sujeito e, muitas vezes, é paralisante porque a pessoa não sabe o que quer ser ou fazer.
E, afinal, qual o propósito do trabalho?
Não existe uma resposta única para esta pergunta. Na verdade, cada pessoa terá uma visão diferente, embora seja possível traçar paralelos coletivos para se chegar a uma ou algumas conclusões. A verdade é que há vários motivos para trabalhar, sendo o de pagar as contas um dos mais comuns e plausíveis, visto que é algo necessário para se ter o mínimo de conforto. Outras pessoas podem dizer que trabalham por prazer e que gostam do que fazem, o que é totalmente possível, embora há de se ter o senso crítico de que nem todos irão trabalhar com aquilo que gostam.
Logo, surgem também outros questionamentos, como, por exemplo: devo trabalhar com o que não gosto por questões ligadas ao dinheiro? Bem, acredito que haverá pessoas que conseguirão trabalhar e suportar um trabalho detestável somente pelo pagamento, mas tenho uma visão diferente. Acredito que devemos escolher uma espécie de meio-termo: um trabalho que conseguimos suportar, pois aí estaremos sendo mais realistas, no sentido de estarmos ancorados com os dois pés na realidade. Não estou dizendo para abandonar um trabalho que talvez você goste, mas sim de que existe a possibilidade de você não conseguir exercer tal trabalho por diversos motivos, visto que vivemos em uma sociedade desigual. Além disso, às vezes aquilo que você considera legal pode ser feito como um hobby, por exemplo, e não como trabalho.
A evolução do propósito ao longo do tempo
Muito se fala de propósito antes de começar a trabalhar, iniciar uma carreira ou até mesmo um curso, mas pouco se fala de que, às vezes, o propósito ou sentido podem aparecer posteriormente. Às vezes, não temos muita certeza de algo e é com as diversas experiências que acumulamos que chegamos a um sentido. Gosto da analogia dos vilões para explicar isso: geralmente, a jornada do herói só começa por conta do vilão e, se não fosse este, talvez o herói jamais iria amadurecer, crescer ou até mesmo ser um herói. É uma analogia que gosto porque exemplifica que, na vida, muitas vezes iremos fracassar e falhar, apenas para aprendermos com isso e tentarmos novamente. Outro ponto importante é o de que, para além das escolhas conscientes, também há motivos e forças inconscientes, afinal, o eu não é o senhor da sua própria casa.
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Conclusão
No final das contas, a busca por propósito não precisa ser uma corrida e nem uma angústia paralisante diante de tantas escolhas. O equilíbrio pode residir justamente na aceitação desse meio-termo realista: aceitar que o trabalho pode ser um meio de sustento e sobrevivência. Assim como na analogia do herói e do vilão, são os desafios, os fracassos e até as funções que não escolhemos inicialmente que irão nos ensinar resiliência e revelar sentidos que antes não eram percebidos.
Portanto, o propósito não é um ponto fixo no mapa, ele é dinâmico. Ele pode nascer da dedicação em algo que inicialmente parecia apenas “suportável” ou da sabedoria de separar o que fazemos para viver do que fazemos para nos realizar. Em uma sociedade desigual, a maior vitória talvez não seja encontrar o emprego dos sonhos, mas sim desenvolver a capacidade de encontrar dignidade e um pouco de alegria, mesmo nas jornadas que não foram totalmente escolhidas por nós. Afinal, o sentido não está apenas no que fazemos, mas em como decidimos viver o que fazemos.
Referências
Orientação Profissional: Passo a passo – Maria Elci Spaccaquerche, Ivelise Fortim
